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Estilo de vida

Controlar as expectativas é o jeito mais simples de perdoar

Octavio Messias - publicado em 08/06/20

Não projetar aquilo que esperamos do outro ajuda com que o enxerguemos por quem de fato é 

Quando lembro, já com algum distanciamento, de mágoas que ficaram no passado, elas já não doem mais tanto. Certa vez li uma frase em um desses memes motivacionais, cujo autor desconheço, que no entanto me fez muito sentido: “O tempo cura tudo; só não cura o tempo que você perdeu esperando o tempo passar para curar tudo o que você teria vivido se não tivesse esperado tanto tempo”.  A fala, que até anotei, me pareceu de um saber muito arguto no sentido de distinguir dois sentidos básicos da existência: o passado ou o futuro.

Quando conseguimos enxergar adiante, nossas vidas andam, novas oportunidades aparecem, o trabalho prospera e os relacionamentos florescem. Ao nos encontrarmos presos no rancor, ressentidos, por exemplo, com alguém de quem gostamos – seja namorada (o), cônjuge, pais, filho, amigos –, fica mais difícil que novos laços se estabeleçam e que a sua vida prospere rumo à felicidade. Ficamos presos naquela dor ainda não curada, “como uma ferida exposta”, uma vez um sábio amigo me falou. Uma ferida exposta ainda propensa a latejar. 

Claro, é necessária muita reflexão – e muitas vezes até análise – para curar as feridas e assimilar as mágoas do passado; no entanto, quanto menos tempo perdermos nesse processo de elaboração, mais tempo teremos desfrutar daquilo de mais sagrado que temos ao nosso dispor: viver. E, pela minha experiência pessoal, o atalho mais rápido para se curar das feridas do passado é perdoar. 

Para conseguir perdoar, precisamos conseguir apontar o quanto daquela mágoa é responsabilidade do outro, e o quanto ela foi infligida por mim, uma dor resultante da frustração das minhas próprias expectativas. Tirar a culpa do outro e entender, aceitar e assumir nossa própria responsabilidade pelos desencantos que vivemos. Pois, embora doloroso seja, não somos tão cândidos quanto tendemos a preferir imaginar. 

Um exemplo pueril que, na minha opinião, ilustra bem esse tipo de impasse: na época da faculdade, me frustrava com frequência com um amigo quando ele não aceitava me acompanhar nas festas do diretório acadêmico. De quem era a responsabilidade pelo meu desgosto, minha, que projetei a expectativa de ter meu fiel escudeiro na festa, ou dele, um indivíduo com disposições, impressões e opiniões próprias que, em pleno exercício do seu livre-arbítrio, optou por não sair em uma determinada noite? 

Ou quando me frustrava com frequência com uma ex-namorada que não se sentia tão disposta a me acompanhar em eventos sociais, o que, sem perceber, eu julgava ser sua obrigação, embora logicamente não fosse. Temos de entender que, em relacionamentos, lidamos com emoções, e não podemos julgar, cobrar ou condenar outra pessoa pela maneira como ela se sente. 

Assim como nós, o outro não é perfeito, tem suas próprias limitações e questões emocionais, e dificilmente enxerga determinado impasse da mesma maneira. Não tem como imaginar – nem deve se propor a satisfazer – tudo que dele esperamos, tampouco tem responsabilidade pela maneira como nos sentimos. Isso cabe apenas a nós mesmos, no pleno exercício do nosso livre-arbítrio. 

Passei a ter um relacionamento muito mais saudável com os meus pais desde que resolvi perdoá-los, seja quais tenham sido as mágoas que me afligiram no passado. Procurei entender que na maioria das vezes (senão todas), eles não agiram com esse intuito. Eles são fruto de outros tempos, outros valores, outras visões de mundo, e entendi que aproveito meu relacionamento com eles muito mais desde o momento em que passei a entender e a respeitar quem eles são, e não quem eu poderia desejar que eles fossem. Faz mais sentido lidar com eles e aproveitá-los como são, do que perder tempo, disposição e energia esperando algo que não condiz com quem são. 

O que me parece um exercício saudável, observar o outro, pelo que deseja e por quem de fato é, ao invés de por aquilo que espero dele. Assim tendo a não mais me frustrar, e também a aprender com o que de mais singular essa pessoa tem a me oferecer, ainda que seja inesperado, requeira diálogo e assimilação. 

Perceber que, ao perdoar, ao abrir mão do papel de capataz e de julgar, quem ganha vida nova e deixa o passado para trás é você. Isaías, 43:25: “Sou eu, eu mesmo, aquele que apaga suas transgressões, por amor de mim, e que não se lembra mais de seus pecados”.

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