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Quando é preciso procurar um exorcista?

EGZORCYSTA

AM113 | Shutterstock

Reportagem local - publicado em 09/06/20

Quem responde é o pe. César Truqui, um dos exorcistas mais conhecidos da atualidade

O pe. César Truqui, sacerdote mexicano radicado na Itália e na Suíça, foi aluno do pe. Gabriele Amorth, um dos exorcistas mais reconhecidos de todos os tempos. O pe. César é um dos palestrantes do curso “Exorcismo e Oração de Libertação”, do Ateneu Pontifício Regina Apostolorum, de Roma, em parceria com o Grupo de Estudos e Informação Sócio-Religiosa de Bolonha e com a Associação Internacional de Exorcistas.

Em entrevista exclusiva concedida à Aleteia em 2016 através da jornalista italiana Chiara Santomiero, o exorcista abordou, entre várias outras questões, a experiência das pessoas possuídas. Eis alguns dos principais esclarecimentos que ele apresentou na entrevista:

Quando é preciso procurar um exorcista?

Pe. Truqui: Quando o que acontece com você escapa do normal. Eu conheci uma senhora em Roma que era ateia, uma católica só batizada, que não acreditava em nada. Ela foi possuída, não sei em que circunstâncias. Começou a ouvir vozes continuamente, que a incitavam a matar o marido e o filho e depois tirar a própria vida. Ela pensou que estava louca e foi procurar um psiquiatra, mas ele se viu diante de uma pessoa muito inteligente, coerente e com muita clareza de ideias. O psiquiatra não pôde curá-la. Um dia, as traças tinham comido todas as roupas daquela mulher, mas sem tocar nas do marido, que estavam no mesmo armário, nem nas do filho. E não foi encontrada traça nenhuma na casa. Algo inexplicável. Uma amiga aconselhou a mulher a procurar o padre Amorth e ele descobriu que ela estava possuída. Mas ela não acreditava nem nos anjos nem nos demônios. Agora ela é uma cristã praticante. Por que Deus permite isso? Também para o bem das pessoas.

Quantas pessoas que procuraram o senhor estavam realmente possuídas?

Pe. Truqui: Pouquíssimas.

E por que elas acham que estão possuídas?

Pe. Truqui: Entre as pessoas que vêm até mim, eu distingo três casos: o verdadeiro possuído, o não possuído e o caso problemático. O primeiro e o último são os mais fáceis: você sabe que se trata de um verdadeiro possuído porque ele manifesta os quatro sinais e porque, quando você faz as orações, a pessoa entra em transe e reage de um modo que o exorcista conhece. Poderia ser fingimento, mas é difícil. No segundo caso, com a experiência de sacerdote e confessor, você percebe quando há problemas espirituais ou psicológicos e pode descartar a influência diabólica. O problema é quando você encontra alguém que parece realmente possuído, mas não está, porque existem traumas profundos acompanhados de comportamentos de risco, tais como participar de sessões espíritas ou recorrer a cartomantes. Eu conheci uma moça que foi estuprada por um homem que se dizia “mago latino-americano” e que tinha se apaixonado por ela. Um dia ele deu a ela um café com alguma droga e a violentou: ela estava consciente, mas não conseguia reagir. Esse trauma enorme a fez pensar na possessão diabólica por meio da droga ingerida e da violência sofrida. Eu pensei que ela estivesse mesmo possuída. Mas quando orei e lhe impus as mãos durante o exorcismo, ela nunca entrou em transe, nem havia traço de outros fenômenos. Então eu percebi que a causa era outra. É por isso que, nos cursos para exorcistas, abordamos quadros médicos e psiquiátricos que podem entrar em jogo nessas situações.

As pessoas realmente possuídas, como elas vivem?

Pe. Truqui: Elas vivem de maneira comum. O diabo não age continuamente nelas. Vou fazer uma comparação paradoxal para tentar explicar: se uma pessoa compra um carro, aquele carro fica à disposição dela, ela o usa quando quer. Acontece o mesmo com a pessoa possuída. Há momentos em que o diabo age: ele entra no carro e dirige do jeito que quer. E há outros momentos em que não. O carro tem um dono, mas o dono não o usa o tempo todo.

O senhor teve a oportunidade de perguntar a alguém quais foram as suas sensações durante o exorcismo?

Pe. Truqui: Eu perguntei àquele senhor francês, de quem já falamos, o que ele tinha sentido durante o exorcismo e ele me disse que sentia como se dentro dele houvesse um campo de batalha. De um lado, ele sentia os demônios correrem desesperados e falarem entre si; por outro, quando o padre rezava, ele sentia a luz de Deus que os varria para fora, mas, em seguida, eles voltavam de novo.

Há sinais típicos da possessão?

Pe. Truqui: Os previstos pelo ritual. São quatro: a aversão ao sagrado, falar línguas desconhecidas ou mortas; ter uma força extraordinária que vai além da natureza da pessoa; e o conhecimento de coisas ocultas, escondidas.

Basta um exorcismo para livrar a pessoa?

Pe. Truqui: É dificílimo. Normalmente, são necessários vários exorcismos.

Funciona como uma terapia?

Pe. Truqui: Sim. O exorcismo é um sacramental, não um sacramento. O sacramento é eficaz em si mesmo. Se eu dou a alguém a absolvição na confissão, naquele momento, verdadeiramente, os pecados dessa pessoa são perdoados. Já o exorcismo é eficaz na medida da santidade do sacerdote, da fé da pessoa para quem é realizado o exorcismo e de toda a Igreja. Se hoje os exorcismos são menos eficazes, é porque toda a Igreja está mais fraca.

Qual é a diferença entre exorcismo e oração de libertação?

Pe. Truqui: Ambos têm o mesmo objetivo: a libertação da pessoa da influência do mal ou da possessão. O exorcismo em sentido próprio é um ministério dentro da Igreja, conferido pelo bispo a alguns sacerdotes. Só pode ser exercido por sacerdotes, não por leigos, e só pelos que têm uma permissão explícita do bispo. Já a oração de libertação pode ser feita por qualquer pessoa, homem ou mulher, leigo ou sacerdote, em virtude do nosso cristianismo, porque Jesus disse: “Quem crê em mim expulsará os demônios”. O exorcismo, além disso, é um comando direto ao demônio, enquanto a oração de libertação é uma súplica a Deus ou à Virgem Santíssima, para que ela intervenha.

O senhor nunca tem medo?

Pe. Truqui: No início, eu tinha. Depois você fica habituado também a certas manifestações e não se surpreende mais ao ouvir uma voz que muda: uma mulher que começa a falar com voz fina e de repente passa para um tom cavernoso. É preciso ficar atento para não cair na obsessão pelo maligno. O exorcista sabe que o diabo existe, mas também que ele não está em todos os lugares. Eu entendi, acima de tudo, que o exorcismo é um ministério de misericórdia: um ato de amor por uma pessoa que sofre. Só isso.

Que tipo de mal é enfrentado num exorcismo?

Pe. Truqui: Um mal personificado. Paulo VI falou da “fumaça de Satanás”. Não é a simples “privatio bonis”, privação de um bem, descrita pela filosofia, mas um mal eficaz, operante. Falamos da presença de um ente mau. O que é esse ente mau só a fé pode dizer, não a ciência. A fé nos fala da existência de seres espirituais: os bons são os anjos, os maus são os demônios.

O mal, entendido como uma entidade que se apossa fisicamente de alguém, é um pouco difícil para as pessoas aceitarem, não?

Pe. Truqui: Sim, é verdade, porque normalmente, na vida, não se tem esse tipo de experiência. Pelo ministério que eu exerço há tantos anos, tive a oportunidade de estar com essas pessoas e, para mim, é mais fácil acreditar que certos fenômenos existem.




Leia também:
7 contundentes afirmações do padre Amorth sobre o diabo e suas ações no mundo

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