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Não ficar insultando os governantes: é inútil e chato, adverte Papa

PAPIEŻ FRANCISZEK
ANGELO CARCONI/AFP/East News
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“Nós rezemos pelos governantes. Rezemos… Precisam da nossa oração. É uma tarefa que o Senhor nos confia. Temo-la cumprido? Ou limitamo-nos a falar, a insultar?”

O Papa Francisco pediu hoje que os cristãos não percam tempo se lamentando nem insultando os responsáveis da sociedade.

Na festa dos Apóstolos Pedro e Paulo, o Papa celebrou a Missa na Basílica de São Pedro.

Em sua homilia, o Papa Francisco enfocou em “duas palavras-chave”: unidade e profecia.

Sobre a unidade, o Papa explicou que Pedro e Paulo eram pessoas muito diferentes. “Mas sentiam-se irmãos, como numa família unida onde muitas vezes se discute mas sem deixar de se amarem”.

Contudo, a familiaridade que os unia não provinha de inclinações naturais, mas do Senhor. Ele não nos mandou agradar, mas amar. É Ele que nos une, sem nos uniformizar. Une-nos nas diferenças.

Segundo o Papa, a Igreja, pouco depois de ter nascido, passava por uma fase crítica de perseguição. “A comunidade parece decapitada; cada qual teme pela própria vida”.

Nesse contexto difícil, a força da unidade vem da oração. “Diz o texto que, «enquanto Pedro estava encerrado na prisão, a Igreja orava a Deus, sem cessar, por ele»”.

Reclamações

O Papa Francisco lembra que, mesmo num momento de tantas dificuldades, “momentos dramáticos”, “ninguém se lamenta do mal, das perseguições, de Herodes”.

Ninguém insulta Herodes; e nós estamos tão habituados a insultar os responsáveis. É inútil, e até chato, que os cristãos percam tempo a lamentar-se do mundo, da sociedade, daquilo que está errado. As lamentações não mudam nada.

O Papa afirmou que as lamentações são “a segunda porta que fechamos ao Espírito Santo, como vos disse no dia de Pentecostes: a primeira é o narcisismo, a segunda o desânimo, a terceira é o pessimismo”.

O narcisismo leva-te a parar diante do espelho, a olhar continuamente para ti; o desânimo, às lamentações; o pessimismo, ao enigmático, à escuridão. Estas três atitudes fecham a porta ao Espírito Santo.

Ao invés de culpar, rezar

Aqueles cristãos não culpavam, mas rezavam, afirmou o Papa. Naquela comunidade, ninguém dizia: «Se Pedro tivesse sido mais cauteloso, não estaríamos nesta situação». Ninguém o dizia.

Humanamente havia motivos para criticar Pedro, mas ninguém o criticava. Não murmuravam contra ele, mas rezavam por ele. Não falavam por trás, mas falavam com Deus. Hoje, podemos interrogar-nos: «Guardamos a nossa unidade com a oração: a nossa unidade da Igreja? Rezamos uns pelos outros?»

Que aconteceria se se rezasse mais e murmurasse menos, deixando a língua um pouco mais tranquila? – perguntou o Papa.

Aconteceria “aquilo que aconteceu a Pedro na prisão: como então, muitas portas que separam, abrir-se-iam; muitas algemas que imobilizam, cairiam. E nós ficaríamos maravilhados”.

Peçamos a graça de saber rezar uns pelos outros. São Paulo exortava os cristãos a rezar por todos, mas em primeiro lugar por quem governa (cf. 1 Tim 2, 1-3). «Mas este governante é…», e os adjetivos são muitos. Não os digo, porque este não é o momento nem o lugar para repetir os adjetivos que se ouvem contra os governantes. Deixemos que Deus os julgue! Nós rezemos pelos governantes. Rezemos… Precisam da nossa oração. É uma tarefa que o Senhor nos confia. Temo-la cumprido? Ou limitamo-nos a falar, a insultar? Quando rezamos, Deus espera que nos lembremos também de quem não pensa como nós, de quem nos bateu a porta na cara, das pessoas a quem nos custa perdoar. Só a oração desata as algemas, como a Pedro; só a oração deixa livre o caminho para a unidade.

Profecia

A segunda palavra-chave que o Papa quis comentou foi “profecia”. Unidade e profecia.

A profecia nasce quando nos deixamos provocar por Deus: não quando gerimos a própria tranquilidade, mantendo tudo sob controle. Não nasce do meu pensamento; não nasce do meu coração fechado. Nasce, se nos deixarmos provocar por Deus.

Quando o Evangelho inverte as certezas, brota a profecia. Só quem se abre às surpresas de Deus é que se torna profeta, disse o Papa.

Hoje precisamos de profecia, mas de verdadeira profecia: não discursos que prometem o impossível, mas testemunhos de que o Evangelho é possível. Não são necessárias manifestações miraculosas. Dá-me pena ao ouvir proclamar: «Queremos uma Igreja profética». Muito bem! E que fazes para que a Igreja seja profética? Servem vidas que manifestam o milagre do amor de Deus. Não potência, mas coerência; não palavras, mas oração; não proclamações, mas serviço. Queres uma Igreja profética? Começa a servir, e não digas nada. Não teoria, mas testemunho.

Prosseguiu o Papa:

Precisamos não de ser ricos, mas de amar os pobres; não de ganhar para nós, mas de nos gastarmos pelos outros; não do consenso do mundo, do estar de bem com todos (entre nós usa-se a expressão: «estar de bem com Deus e com o diabo»), estar de bem com todos, não! Isto não é profecia. Mas precisamos da alegria pelo mundo que virá; não daqueles projetos pastorais que parecem conter em si mesmos a própria eficiência, como se fossem Sacramentos! Projetos pastorais eficientes, não; mas precisamos de pastores que ofereçam a vida: de enamorados de Deus.

O Papa Francisco comentou o amor de Pedro e Paulo por Jesus:

Foi assim, como enamorados, que Pedro e Paulo anunciaram Jesus. Pedro, antes de ser colocado na cruz, não pensa em si mesmo, mas no seu Senhor e, considerando-se indigno de morrer como Ele, pede para ser crucificado de cabeça para baixo. Paulo está para ser decapitado e pensa só em dar a vida, escrevendo que quer ser «oferecido como sacrifício» (2 Tim 4, 6). Isto é profecia …e não palavras. Isto é profecia, a profecia que muda a história.

E o Papa encerrou assim sua homilia:

Como o Senhor transformou Simão em Pedro, assim chama a cada um para fazer de nós pedras vivas, com as quais construir uma Igreja e uma humanidade renovadas. Há sempre quem destrua a unidade e quem apague a profecia, mas o Senhor acredita em nós e pede-te: «Tu queres ser construtor de unidade? Queres ser profeta do meu céu na terra?» Irmãos e irmãs, deixemo-nos provocar por Jesus e ganhemos a coragem de Lhe dizer: «Sim, quero»!

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