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O “anjo do penhasco” que salvou centenas do suicídio na Austrália

WATSONS BAY SIDNEY
Aleksandar Todorovic | Shutterstock
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“Lembre-se sempre do poder de um simples sorriso, de uma mão amiga, de um ouvido atento e uma palavra gentil”, aconselhou

Onde há vida, há esperança. Poucas pessoas conhecem essa verdade mais de perto que Don Ritchie.

Ritchie é tido como salvador da vida de centenas de supostos saltadores em um perigoso penhasco à beira-mar na Austrália, simplesmente convidando-os para ir até sua casa nas proximidades para tomar chá e conversar.

Quando ele morreu, em 2012, aos 85 anos, a família disse que ele salvou cerca de 500 pessoas do suicídio, embora a contagem oficial seja 160. Ele recebeu a Medalha da Ordem da Austrália e foi nomeado Herói Local da Austrália em 2011.

Talvez a maior satisfação para Ritchie tenha sido os presentes, cartões de Natal e cartas que ele recebeu daqueles que salvou, algumas vezes uma década ou duas após a tentativa de suicídio.

“Quem o conhecia sabia que ele era uma pessoa de muita força e muito capaz”, disse a filha de Ritchie, Sue, no momento de sua morte. “Foi apenas algo que ele constatou e viu que precisava fazer alguma coisa.”

Por mais de 50 anos, ele morou perto das falésias de Watsons Bay, no leste de Sydney, um local conhecido localmente como Gap.

No início de sua vida, esse veterano da marinha tentava conter pessoas desesperadas, que se dirigiam ali para cometer suicídio, enquanto sua esposa, Moya, chamava a polícia. Mas, à medida que envelhecia, ele começaria a adotar uma abordagem mais pessoal.

Ele ficou conhecido como “o anjo do penhasco”.

“Eu o conheci há 40 anos”, disse o padre Tony Doherty, da paróquia de Rose Bay, à rádio 702 ABC em Sydney.

“Foi em Watsons Bay, eu estava voltando para casa por volta das 13h. Havia um grupo de rapazes no Gap. Eu me aproximei hesitando. Ali estava uma figura deitada de bruços, conversando com um sujeito vietnamita aterrorizado, que estava à margem do penhasco e ameaçava pular. Eu vi essa figura gradualmente encorajar o sujeito a voltar. Ele mantinha sua voz suave, que encorajava esse companheiro a não pular.”

“Ele era um homem único”, lembrou Diane Gaddin, advogada de prevenção ao suicídio que teve uma filha que morreu no Gap.

“Ele é um farol e inspiração não apenas para nós, na Austrália, mas para o mundo, porque é preciso coragem, bravura, tenacidade, para ficar à beira do penhasco e incentivar alguém a não dar o passo final. Ele era um homem gentil e persuasivo que lhes oferecia esperança com palavras calorosas e acolhedoras.”

Obviamente, nem todas as intervenções de Ritchie foram bem sucedidas. Infelizmente, ele viu várias pessoas pularem, incluindo um jovem quieto que “apenas olhava para a frente”, como ele contou ao The Sydney Morning Herald em 2009.

“Eu estava conversando com ele por cerca de meia hora pensando que estava progredindo”, contou Ritchie. “Eu disse ‘por que você não vem tomar uma xícara de chá ou uma cerveja, se quiser?’ Ele disse ‘Não’ e pulou; eu ainda consegui pegar o seu boné.”

No entanto, Ritchie nunca desistiu. “Nunca tenha medo de falar com aqueles que você sente que precisam”, disse ele em 2011. “Lembre-se sempre do poder de um simples sorriso, de uma mão amiga, de um ouvido atento e uma palavra gentil.”

Como ele conseguiu que tantas pessoas voltassem? Para Ritchie, a fórmula era simples. Nas suas próprias palavras, seu conselho sempre foi: “Sorria. Seja amigável e diga ‘eu posso ajudá-lo de alguma forma?‘”

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