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“Cartas da Trapa”, um livro imprescindível na formação espiritual

MARIA GABRIELLA SAGHEDDU

Monastero Trappiste Vitorchiano

Vanderlei de Lima - publicado em 11/07/21

No plano teológico, a mística é a fase da vida espiritual na qual ocorre a íntima união do Criador com a criatura

A Cultor de Livros acaba de publicar Cartas da Trapa. Vida e correspondências de Maria Gabriela Sagheddu, monja trapista do século XX, que, em 204 páginas, reúne 45 cartas enviadas pela religiosa italiana à sua mãe, à madre Pia, a familiares etc. Tais cartas vêm acompanhadas da apresentação e de notas do tradutor brasileiro, bem como de uma rica introdução de Mariella Carpinello, estudiosa da vida monástica na Itália.

O livro pode ser considerado um excelente material de reflexão a todo o Povo de Deus, mas deveria ser lido, como material de formação, por toda pessoa que se sente chamada ao sacerdócio ministerial e/ou à vida consagrada, bem como pelos formadores, confessores e diretores espirituais. E por que afirmamos isso? – Porque, com uma linguagem simples e usando exemplos do dia a dia, essa jovem monja – que viveu apenas 25 anos (1914-1939) e foi beatificada por São João Paulo II, em 25 de janeiro de 1983 –, oferece a cada leitor atento o verdadeiro caminho do céu. Sim, não é difícil ver em Gabriela uma autêntica mística que, num curto espaço de tempo, percorreu as vias purgativa, iluminativa e unitiva. Detalhemos estas nossas afirmações. 

No plano teológico, a mística é a fase da vida espiritual na qual ocorre a íntima união do Criador com a criatura de tal modo que esta esvazia-se de si mesma a fim de melhor se preencher de Deus, tornando-se uma só com Ele (cf. Gl 2,20; Catecismo da Igreja Católica n. 2014). Tal união pode ser ou não acompanhada de fenômenos extraordinários meramente complementares (estigmas, êxtases, levitação etc.). Gabriela, por exemplo, não vivenciou nenhum deles. Na mística, Deus habita, por um dom sobrenatural d’Ele (supondo a capacidade, mas nunca a exigência natural humana), na alma dos justos. Continua, no entanto, a transcender ao ser humano, por isso a união mística nada tem a ver com o panteísmo, doutrina ilógica e irracional, que coloca Deus – o Perfeito, o Absoluto e o Eterno – em pé de igualdade com a criatura – que é imperfeita, relativa e contingente. O Criador seria, assim, imanente ao mundo, o que é absurdo.

Essa vida mística passa, como vimos, pelas vias purgativa, iluminativa e unitiva. A via purificativa consiste na prática da ascese (de áskesis, exercício) capaz de ajudar a remover as paixões desordenadas que ofuscam a mente na busca de Deus. A via iluminativa é a iluminação da mente purificada a fim de que o fiel possa intuir as grandes verdades da fé. Sim, o amor de Deus fortalecido pela ascese abre a mente do cristão para acolher a iluminação do Espírito Santo, uma vez que o profundo conhecimento de Deus tem por base o amor. A via unitiva já é a consequência do exercício do amor a intuir Deus e seu plano de ação na vida do homem e da mulher que, lutando contra o pecado e as paixões desregradas, se deixaram iluminar por Deus e, agora, se unem a Ele no ponto mais alto da mística. Isso é uma antecipação do gozo a ser experimentado, de forma plena, no céu (cf. 1Cor 2,9), mas já sentido nesta vida, dado sermos templos do Espírito Santo (cf. 2Cor 4,17) que habita em nós (cf. 1Cor 3,16). Nesta última fase, a esposa (a alma humana) se une ao Esposo (Jesus Cristo) para ser, como dito, uma só com Ele (cf. Fl 1,21; 2,5), ainda que cada uma das partes (Deus e a alma) desse matrimônio místico conserve, na essência, a sua identidade própria.

Dito isso, voltamo-nos, de modo breve, às Cartas da Beata Gabriela para tentar – não sem escrúpulos – delimitar essas três fases em sua vida. É purgativo o período entre o seu retorno para a Igreja, por volta dos 17 anos, até a firme decisão de entrar na Trapa de Grotaferrata; iluminativo o tempo que vai da sua entrada no mosteiro até o seu oferecimento como vítima expiatória (cf. Rm 3,25; Hb 2,17; 1Jo 2,2) pelo retorno dos cristãos separados à única Igreja de Cristo. A nosso ver, com o referido oferecimento, para satisfazer a um nobre desejo do celeste Esposo (cf. Jo 17,20-23), a monja trapista chega à via unitiva, iniciada aqui e consumada na eternidade feliz.

Eis porque, apesar de, infelizmente, ainda não ter aparecido em nenhuma rede social trapista ou cisterciense, vale a pena meditar, com imenso apreço, Cartas da Trapa. Vida e correspondências de Maria Gabriela Sagheddu, monja trapista do século XX.

Pedidos: https://www.cultordelivros.com.br/produto/cartas-da-trapa-vida-e-correspondencias-de-maria-gabriela-sagheddu-78610

Tags:
Espiritualidademongesteologia
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