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Cuidar de idosos é oportunidade de retribuir 

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Giannis Papanikos | Shutterstock

Octavio Messias - publicado em 24/08/21

Pequenos gestos de afeto podem marcar uma vida 

Poucas lembranças marcaram minha infância mais do que as viagens dominicais que eu realizava com meu pai até Votorantim, no interior de São Paulo, para cuidar do meu falecido avô, que se chamava Octavio. Todos os domingos entrávamos na Caravan preta com destino ao sobrado em uma viela da cidade, que se formara no começo do século passado como uma vila operária para abrigar os trabalhadores da fábrica de cimento Votorantim, e se emancipou em 1964. 

Já meu pai foi emancipado em 1969, aos 15 anos, para poder vir trabalhar na capital. Durante a primeira parte da minha infância, nos anos 1980, nossas viagens a Votorantim eram mais esporádicas, e geralmente em contextos festivos como churrascos, aniversários, Natal, Dia das Mães, dos Pais etc. Mas depois que perdemos minha avó, em 1989, quando eu tinha sete anos, elas se tornaram necessidade. 

Semanalmente, meu pai verificava se a casa estava limpa, se havia comida na geladeira, deixava um cheque para quitar as despesas da semana, e então repetia o ritual que me marcaria mais durante aquelas visitas. Como “Seu Távio”, como o chamávamos, já se aproximava dos 80, idade com que viria a falecer, ele tinha dificuldades em alcançar os próprios pés, o que fazia necessário ter alguém para cortar suas unhas. 

Domingo, sim, domingo, não, antes de nos prepararmos para voltarmos a São Paulo, meu pai se ajoelhava diante do pai dele e tirava suas meias. Então, pegava o trim e, pacientemente, cortava as unhas, dedo a dedo, de cada um dos pés de Seu Távio. Ao terminar, passava talco antes de lhe calçar um par de meia limpas, seguidas pelos sapatos. 

Meu avô, geralmente sentado em sua poltrona favorita, costumava manter postura rígida, talvez até um pouco envergonhado por requerer esse tipo de cuidado após uma vida ganhada no lombo de uma mula e com as mãos em uma enxada, mas ao mesmo tempo agradecido por poder contar com alguém para fazer isso por ele. Eu, percebendo que era um momento dos dois, ficava mais ao fundo, apenas observando, admirado. No caminho de volta a São Paulo, eu e meu pai dificilmente trocávamos uma palavra. 

Na pandemia, me vi pela primeira vez tendo de assumir esse papel com relação ao meu pai. Embora ele ainda não tenha 70 anos, já era grupo de risco e precisava ser preservado, de modo que visitas regulares ao seu apartamento, para ver se ele está precisando de alguma coisa, tornaram-se parte do meu cotidiano.

Felizmente, meu pai ainda tem alongamento e elasticidade suficientes para cortar as próprias unhas. Mas, quando não tiver, eu estarei lá, ajoelhado à sua frente, assim como ele fazia pelo pai dele. E acho que agora ele percebe que realmente pode contar com isso. 

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CoronavírusFamíliaFilhosIdososPandemiaPaternidade

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