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Maláui: “Queremos chegar a todos os habitantes da diocese”

ACN promove iniciativa de um milhão de crianças rezando o terço

Ajuda à Igreja que Sofre (ACN)

Fundação pontifícia ACN promove iniciativa de um milhão de crianças rezando o terço

Reportagem local - publicado em 04/09/22

As longas distâncias, e a escassez de sacerdotes e de estruturas eclesiais exigem a plena participação dos leigos no ministério

Durante uma visita à sede da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (Fundação AIS), o Bispo Martin Mtumbuka, da Diocese de Karonga, no Maláui, destaca a vitalidade da Igreja Africana, e fala tanto das histórias de sucesso como das lutas da jovem diocese. 

Situada no norte do Maláui, com o grande lago Maláui a leste e as montanhas a oeste, a Diocese de Karonga foi criada em 2010. Os seus 24 padres – 17 diocesanos e sete religiosos – dão assistência a mais de 60.000 católicos num território de cerca de 12.000 km2, maior do que o Líbano, o Kosovo ou a Jamaica. 

A principal preocupação do Bispo Martin Mtumbuka nesta imensa área é a evangelização, que continua a ser muito importante para toda a região. “Devemos assegurar-nos que as pessoas não vão à nossa procura, mas que nós as procuramos. Devemos tentar estar o mais próximo possível delas”, afirma. 

O povo não partilhará os seus problemas e preocupações com alguém que mal conhece, explica, o que significa que a proximidade dos padres aos seus paroquianos é fundamental. É por isso que, apesar da sua escassez, cada padre procura visitar todos os fiéis das suas paróquias pelo menos uma vez por ano e o plano estratégico da diocese exige a presença constante de um padre num raio de pelo menos 20 km de cada paróquia de Karonga.

Mas as distâncias não são o único problema, as colinas e as montanhas constituem a maior parte da diocese. É difícil para os idosos subir as colinas para ir à igreja e as pessoas doentes também precisam de receber os sacramentos, pelo que o padre tem de chegar a eles. No entanto, as estradas nas montanhas e nos distritos rurais são muito más e os automóveis nem sempre são a melhor opção, especialmente durante a estação das chuvas. 

“A estrada é tão má que em alguns casos os padres ficaram presos e tiveram de passar a noite ao relento. No entanto, precisamos de fazer todos os possíveis para chegar aos nossos paroquianos: se não chegarmos de carro, chegaremos de mota. Senão, de bicicleta, ou a pé. Ou ainda pela rádio. Que ninguém nos possa acusar de não lhe termos levado a mensagem de Cristo. Devemos poder dizer que fomos a todas as aldeias.”

Para ajudar a tornar isto possível, e na sequência de um pedido do Bispo Martin, a Fundação AIS ajudou a financiar a compra de nove motas para ajudar no trabalho pastoral.

Ultrapassar distâncias com criatividade

As melhorias dos transportes ajudam, mas, como o bispo explica, a rádio continua a ser a ferramenta mais poderosa para o esforço da catequização em África. A Rádio Tuntufye FM foi criada em 2014, com o apoio da Fundação AIS. A língua oficial utilizada na Diocese é Tumbuka, mas a população local também utiliza Lambya, Ndali, Nyakyusa, Ngonde, bem como vários dialectos. Os sacerdotes procuram utilizar a língua da comunidade local, e a rádio transmite nas três principais línguas da diocese. 

O uso de telemóveis e da Internet é extremamente raro, mas isso não constitui um obstáculo à criatividade. Por exemplo, um dos missionários, o Pe. Federico, tem sempre um telemóvel consigo quando vai a uma aldeia remota para se encontrar com o chefe. No final da reunião, dá-lhe o telemóvel e, a partir desse dia, envia uma mensagem diária com um versículo da Bíblia a cada um dos chefes que encontra, que depois o partilham com toda a aldeia.

A fé do povo é profunda e viva. Mesmo que o padre não possa estar presente, em alguns lugares o povo reúne-se para rezar sozinho. Cada paróquia tem entre 15 e 60 pequenas igrejas ou capelas. “Quando uma comunidade pequena não tem um lugar para se reunir, eles próprios constroem a igreja”, explica o Bispo Martin. As pessoas contribuem com cimento e tijolos e colaboram como podem na construção mas, não sendo profissionais, pouco tempo depois muitos dos edifícios desmoronam. Para diminuir os problemas, a diocese está a adoptar uma abordagem comum, com normas, para a construção de igrejas e outras infra-estruturas paroquiais.

Um laicado empenhado

As longas distâncias, e a escassez de sacerdotes e de estruturas eclesiais exigem a plena participação dos leigos no ministério. O Bispo Mtumbuka acredita que “não se pode dar tudo ao padre. Por exemplo, nem todos os funerais podem ser presididos por um padre, não é possível na nossa situação. Assim, há leigos que foram formados como ministros que presidem aos funerais. A ideia é que os leigos podem desempenhar todas as responsabilidades que a Igreja permite. Temos de assegurar que as pessoas recebem uma formação muito sólida na catequese. Queremos ter o maior número possível de agentes de evangelização.”

Há um longo caminho a percorrer, mas nos 12 anos desde a sua criação houve um aumento significativo de paróquias, de 5 para 16, e muitos jovens padres juntaram-se à diocese, que actualmente conta com 28 seminaristas. Alguns padres estão a estudar no estrangeiro para serem futuros educadores e professores. 

A diocese também beneficiou da generosidade dos benfeitores da Fundação AIS que tornaram possível a realização de mais de 100 tipos de projectos, num total de quase 1,5 milhões de euros, incluindo a construção de 25 edifícios, 12 dos quais são igrejas. 

Novos desafios a ultrapassar

Agora, porém, a Diocese de Karonga enfrenta um novo desafio. Sendo uma zona rural, as pessoas costumavam contribuir para a manutenção do clero com produtos, e não com peditórios. Contudo, devido à invasão russa da Ucrânia, os preços dos alimentos duplicaram, enquanto o combustível triplicou. Os fertilizantes, que normalmente vêm da Ucrânia e da Rússia, estão agora inacessíveis. 

A guerra também afectou a actividade da Igreja local: “O óleo de cozinha costumava custar cerca de 1000 ou 2000 kwachas [entre um e dois euros, mais ou menos], agora custa 9000. O povo não tem dinheiro para isso! E isto conduz a outro problema: muito em breve os padres deixarão de ser apoiados pelo povo”, adverte o Bispo Martin.

O Bispo Martin Mtumbuka conclui a sua conversa com uma mensagem para os benfeitores da Fundação AIS: “Somos uma diocese jovem, e estamos muito gratos. Estamos a tentar fazer todos os possíveis para a salvação das almas e a glória de Deus. É uma honra trabalhar em conjunto com aqueles que ajudam a Igreja que sofre. Não queremos que a generosidade das pessoas que nos apoiam seja em vão, por isso estamos a dar o nosso melhor. E gostaria de vos assegurar que rezamos por elas. Deus vos abençoe a todos!”

(Via Fundação AIS)

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