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Tratado sobre amor de Deus, de São Bernardo de Claraval

Jesus ressurrecto junto aos anjos

Renata Sedmakova | Shutterstock

Vitor Roberto Pugliesi Marques - publicado em 19/02/23

Entenda o que são "os quatro graus do Amor", segundo este grande santo

Este artigo analisa, de modo assaz conciso, o Tratado sobre o amor de Deus (São Paulo: Paulus, 2015), escrito pelo grande São Bernardo de Claraval (1090-1153), abade cisterciense e doutor da Igreja.

O prefácio da obra já nos traz o motivo pelo qual ela foi escrita. Trata-se de uma resposta a questionamentos feitos a São Bernardo por um senhor chamado Henrique, cardeal e chanceler da Igreja romana. Ao que parece (não é colocado no texto que chega até nós as perguntas objetivamente feitas), esse clérigo deve tê-lo interpelado sobre como o Amor de Deus se manifesta e, inferimos, pela teor do texto escrito, que deveria o senhor Henrique ter ainda indagado o como e o porquê corresponder a esse Amor. Ora, se todo ser humano, mesmo sem fé, deve amar a Deus, muito mais há de fazê-lo o cristão que tem, diante de si, na pessoa de Cristo, a imensa prova do grande amor do Pai por nós. Ele nos enviou – para sofrer e morrer na cruz – o seu próprio Filho quando ainda éramos pecadores (cf. Rm 5,8). Há maior prova de amor do que esta?

Isso posto, tratemos, agora, sobre os quatro graus do Amor. O primeiro grau consiste no amor do homem a si próprio. Seria natural e justo que antes de tudo amássemos o Autor de tudo. Todavia, explica-nos São Bernardo, que “a natureza é muito frágil e muito fraca para seguir tal recomendação. Ela começa por amar a si mesma” (p. 55). Desde que exercido dentro da devida moderação e justiça, não há nada de errado nesse amor. Contudo, se ele dita-se em excesso, torna-se egoísta e não compatível com o que Deus deseja de nós. Em se tratando de amor próprio, caso extrapole os limites, deve-se lembrar do preceito que ordena: amarás o teu próximo como a ti mesmo (cf. Mt 22,38). No ato de amar a si com a devida moderação, ou seja, abrindo-se também ao próximo, está o exercício correto do primeiro grau do amor. Entretanto, não é possível amar perfeitamente o próximo se não for em Deus. Vai nos dizer, pois, o Tratado que “devemos então começar por amar a Deus, se se quer amar o próximo nele, de sorte que Deus, que é o autor de todos os outros bens, o é também de nosso amor por ele” (p. 58).

O segundo grau consiste no amor do homem a Deus, mas com finalidade em si mesmo, buscando o seu próprio benefício. Podemos perceber muita fragilidade nesse amor, todavia, nos diz São Bernardo, que “há alguma sabedoria nele [nesse amor] por saber [o homem] do que é capaz por si mesmo e o que não pode fazer sem a ajuda de Deus, e por se tentar manter irrepreensível aos olhos daquele que lhe conserva as forças” (p. 61). Ou seja, nesse grau de amor, o homem já reconhece que não é autossuficiente, e que precisa de Deus para as empreitadas da vida. É obrigado, assim, a recorrer, e com frequência, a Deus. 

O terceiro grau consiste no amor do homem a Deus com a finalidade de unir-se a Ele, mas ainda não de forma plena ou total. Com o progresso na vida de oração, vai se reconhecendo o quanto Deus é bom, disso chega-se a um ponto que se torna fácil amar o próximo, pois o amamos em Deus. “Quem ama com esse amor, ama tanto quanto é amado, e não busca, por sua vez, senão os interesses de Jesus Cristo, não mais os seus próprios” (p. 63). 

O quarto grau consiste no amor em sua plenitude com Deus. Nesse ponto da caminhada, o homem não ama a si mesmo senão por Deus. “Chegar a esse ponto é ser deificado. Igual a uma pequena gota d’água que, misturada a uma grande quantidade de vinho, parece desaparecer, impregnando-se do gosto e da cor desse líquido” (p. 67). 

Para enquadrarmos os quatro graus do amor descrito por São Bernardo no modelo clássico das vias da santificação, podemos dizer que a via purgativa está nos primeiros dois graus do amor; a iluminativa no terceiro grau e a unitiva no quarto grau do amor. 

Leitura sapiencial a cada ser humano que, com a graça de Deus, luta para ser santo como o Pai celeste é santo (Mt 5,48).

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