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Moçambique: “Procuro ser porto de abrigo”, diz leiga missionária em Cabo Delgado

Pope Francis speaks to African children from many countries at an audience at Paul VI Audience Hall

Camille Dalmas / I.MEDIA

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Reportagem local - publicado em 04/06/23

É na Diocese de Pemba, em Cabo Delgado, a região mais pobre de um dos mais pobres países do mundo, que vamos encontrar a paróquia de Santa Cecília de Ocua. Testemunho:

Ocua é um ponto quase imperceptível no mapa. Mas é muito importante para a vida da Igreja. Desde Outubro de 2014 que a Arquidiocese de Braga apadrinhou esta paróquia situada na Diocese de Pemba, em Cabo Delgado, no norte de Moçambique. O projecto Salama tem levado até Ocua vários jovens missionários leigos e também sacerdotes. Eles são uma presença solidária numa região marcada pela pobreza e, desde 2017, também pela violência do terrorismo. A 552ª paróquia da Arquidiocese de Braga é mesmo um mundo à parte. São 98 comunidades, algumas bem distantes, a mais de 100 quilómetros, e onde só se chega por estradas de terra batida, verdadeiras picadas que põem à prova a solidez dos automóveis, mesmo os todo-o-terreno. Mas a maioria das pessoas que vivem em Ocua e em toda a região não têm carro. Nem electricidade, nem água canalizada. A pobreza está presente em todo o lado, em quase todos os rostos.

Ser mão estendida

Fátima Castro, uma jovem missionária leiga portuguesa oriunda de Santo Emilião, uma pequena aldeia em Póvoa de Lanhoso, está em Ocua desde Agosto de 2021. Ela é um dos rostos do projecto Salama, que une a Arquidiocese de Braga à Diocese de Pemba. “Vivo esta experiência como uma humilde tentativa de viver o Evangelho de uma forma mais séria e mais coerente e que, acima de tudo, (me) faz sentido. Cedo percebi que não iria mudar o mundo, mas que podia mudar pequeninos mundos de alguém”, explica, à Fundação AIS. Ao longo destes quase dois anos de missão, Fátima faz um balanço positivo desta experiência, destacando a importância da presença junto dos que mais sofrem, dos que estão desamparados, dos que não têm nada nem ninguém. “Aprendi que, às vezes, o mais importante é estar. Estar com outro e ser para o outro. Mais do que fazer muitas coisas, procuro ser presença, ser ajuda, ser porto de abrigo, ser a mão estendida quando a procuram e os pés que jamais se cansam de caminhar para ir ao encontro… O resto vem sempre por osmose porque aprendi a aceitar o que, de amor e dor tem a missão, chega sempre em forma de dádiva.”

Enganar a fome

E como tem sido importante ser uma mão estendida e ter um sorriso para oferecer! Desde o final de 2017 que Cabo Delgado vivem em sobressalto por causa dos ataques terroristas. Têm sido anos de violência, com mais de 4 mil mortos e quase um milhão de deslocados. É este, embora inacabado, o balanço do terror no norte de Moçambique. Muitos dos que vivem em Ocua ou que passam pela missão da Igreja Católica nem precisam de trazer no olhar a inquietação de quem viveu de perto o medo provocado pelos terroristas. Basta a pobreza. Fátima Castro encontra todos os dias pessoas com olhos suplicantes por comida, mães inquietas com o choro de fome dos seus filhos. Fátima Castro sabe todos os dias como é difícil a vida na missão de Ocua, a 160 quilómetros da cidade de Pemba. “Todos os dias ouvimos esta expressão: ‘estamos a sofrer’. É frequente, nos últimos tempos, chegarem à missão bebés que são alimentados com farinha de milho nos primeiros meses de vida, porque as mamãs não conseguem amamentar porque também não têm o que comer. Uma das mamãs já não comia há dois dias! Os papás vão apanhando todo o tipo de folhas para conseguir sobreviver e alimentar a família. Muitas crianças enganam a fome roendo pau de mandioca seca ou chupando cana-de-açúcar.”

Colheitas a apodrecer

Ocua é um ponto quase imperceptível no mapa. À sua volta há ainda lugares mais pequenos, ainda mais minúsculos, mas onde vivem pessoas. Esta é uma zona essencialmente rural, demasiado distante da cidade, das coisas mais básicas. “Em Ocua a eletricidade pública ainda não chegou e só encontramos água nos poços comunitários”, relata a missionária de Póvoa de Lanhoso. “Ao poço da missão chegam-nos mais de cinquenta mamãs todos os dias para tirar água. Este é o retrato de toda a paróquia. O meio de subsistência deste povo passa pelo trabalho nas machambas (hortas) onde, em tempos ‘abastados’ conseguem cultivar mandioca, milho, feijão e gergelim. Mas não será a realidade deste ano. As pragas e o período das chuvas foi tão longo e intenso (choveu todos os dias durante quase dois meses) que muitas das colheitas estão a apodrecer.”

“Somos todos irmãos”

Numa altura em que o mundo parece estar apenas focado na guerra na Ucrânia, há outras guerras, outros conflitos que começam a ser esquecidos. É o caso de Cabo Delgado, em Moçambique. Na missão de Ocua têm chegado pessoas que fazem dezenas de quilómetros à procura de alimentos. “Na zona onde me encontro – descreve Fátima – continua a aumentar a instabilidade e a insegurança. Há uma mobilidade muito grande das pessoas que faz com que não se fixem nas terras e, por isso, também não conseguem produzir. Por sua vez, há famílias a acolherem muitas outras famílias que fogem das zonas de conflito…”. Ser missionária em Ocua significa ter coragem e disponibilidade, ter os braços sempre abertos, procurar encontra soluções. Há projectos em curso no projecto Salama. Apoio escolar para meninas, aleitamento, e nutrição, ajuda no cultivo das terras. Não falta trabalho nem vontade. Faltam, isso sim, os recursos. E é preciso viver também com isso. “Cada dia é um novo dia e lá vou encontrando forças para cuidar, com caridade, das preocupações e do olhar deste povo que expressa, tantas vezes, um grito silenciado pelas dificuldades enfrentadas. É um olhar de sofrimento. De dor. De incerteza pelo dia de amanhã.” Fátima Castro gosta de citar São João Paulo II, gosta de dizer que a solidariedade prova que nenhum povo está sozinho ou abandonado, gosta de se comprometer com o bem comum. “Neste cantinho da Diocese de Pemba, vou sentindo que há muitas pessoas que não só abraçam as causas, mas tornam-se parte delas até porque, quando falamos de sofrimento humano, não olhamos a raças, religiões, cores, etnias… somos todos irmãos.” Obrigado, Fátima!

(Fundação AIS)

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