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Bispo da Venezuela: "Pragas do Egito não se comparam com o que estamos vivendo"

VENEZUELA;

Aid to the Church in Need

Dom Polito Rodríguez Méndez, bispo de San Carlos, Venezuela

Reportagem local - publicado em 27/07/20

"Ou morremos do coronavírus ou morremos de fome"

Dom Polito Rodríguez Méndez, bispo de San Carlos, na Venezuela, foi entrevistado pela fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS ou ACN, pela sigla em inglês adotada internacionalmente). Ele afirmou que a economia quebrada está levando o seu país a um período de fome que piora dia após dia e que torna a situação venezuelana pior que a do Egito sob as dez pragas:

“As pragas do Egito não são nada em comparação com o que estamos sofrendo aqui (…) Os mais atingidos são os mais pobres, os que não têm nada para comer nem têm possibilidade de levar uma vida digna”.

96% da população na pobreza

Um estudo publicado recentemente pela Universidade Católica Andrés Bello, a segunda mais importante da Venezuela segundo o QS World University Rankings de 2019, aponta que a situação econômica do país se assemelha a de países africanos que, lamentavelmente, nos “acostumamos” a ver listados entre os mais pobres do planeta, como o Chade e a República Democrática do Congo. Segundo o estudo, 96% das famílias da Venezuela estão abaixo da linha de pobreza, sendo que 79% estão em pobreza extrema: seus rendimentos mensais não são suficientes para comprar uma cesta básica de alimentos. Saiba mais sobre este estudo acessando o artigo recomendado ao final desta matéria.

Dom Polito acrescenta que a pandemia de covid-19 piorou uma situação que já era dramática:

“Uma família ganha cerca de três ou quatro dólares por mês, mas uma caixa de ovos custa dois e um quilo de queijo custa três dólares. Estamos em quarentena há mais de dois meses e tudo ficou muito caro. É impossível continuar assim”.

Paróquias sem recursos

A Igreja, que também já estava sem recursos financeiros desde antes da crise do coronavírus, sofre as mesmas privações que o povo a quem antes conseguia ajudar:

“Estamos com as igrejas fechadas há quatro meses. Os padres não têm o que comer. O bispo está fazendo milagres. Outro dia, encontrei um seminarista chorando. Os pais dele foram demitidos e não conseguem mais enviar nada ao filho. Estamos vivendo da providência de Deus”.

Drama dos migrantes ainda mais doloroso

As fronteiras do país estão fechadas, o que impede o retorno dos próprios migrantes venezuelanos que perderam o emprego em outros países, como a Colômbia, o Peru, o Chile, a Argentina e o Brasil. Dom Polito comenta:

“Muitos migrantes tentam voltar ilegalmente. Alguns caminharam 22 dias em trilhas. Criaram o que estão chamando de centros sentinelas para quem voltou, mas muitos acham que esses centros não são dignos e não querem ir para lá. Ficam escondidos”.

Trata-se de locais informais de acolhimento, mas muitos deles são tão precários e há tanta superlotação que faltam banheiros e condições básicas de higiene.

Praga de vermes

Como se não bastasse, uma praga de vermes aniquilou plantações recentemente nos Estados venezuelanos de Cojedes, Portuguesa e Barinas, o que levou dom Polito a fazer a comparação já mencionada com as pragas do Egito:

“As pragas do Egito não são nada em comparação com o que estamos sofrendo aqui. Ficaram pequenas”.

Apesar de tudo… “não vamos deixar as pessoas sozinhas”

O bispo, no entanto, reafirma que não perde a fé nem a sua vivência prática na solidariedade aos irmãos, já que a fé sem obras é morta:

“Apesar das limitações, não vamos deixar as pessoas sozinhas nesta situação terrível que estamos passando. E não estou me referindo apenas à ajuda humanitária, mas também a fortalecer as pessoas integralmente, para lutar contra a corrupção, o descaso, a falta de responsabilidade. Não queremos intervenções, muito menos armadas, mas precisamos pedir ajuda humanitária e sanitária internacional, porque não temos outra alternativa: ou morremos do coronavírus ou morremos de fome”.


VENEZUELA

Leia também:
Pobreza na Venezuela já atinge 96% da população, diz novo estudo

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