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Proibida em 1995, devastadora autobiografia de ex-pastor da IURD é relançada no Brasil

Nos Bastidores do Reino, autobiografia de ex-pastor da IURD

Nos Bastidores do Reino-A vida secreta na Igreja Universal do Reino de Deus | Facebook

Reportagem local - publicado em 01/07/21

"Nos Bastidores do Reino", de Mário Justino, revela terror psicológico, fraude e prostituição "entre orações e salmos de Davi"

Censurada e proibida em 1995, uma devastadora autobiografia de um ex-pastor da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) acaba de ser relançada no Brasil, segundo veículos de imprensa. Trata-se do livro “Nos Bastidores do Reino: A vida secreta na Igreja Universal do Reino de Deus“, de Mário Justino, que denuncia esquemas de corrupção, drogas e sexo nos bastidores da corporação fundada pelo empresário Edir Macedo.

O livro chegou a ser proibido no Brasil logo após seu lançamento, em 1995, quando durou pouco mais de 20 dias nas estantes das livrarias do país. Por determinação judicial, obtida mediante a ação do departamento jurídico da IURD, todos os exemplares ainda não vendidos na época foram recolhidos.

Nos Bastidores do Reino – A vida secreta na Igreja Universal do Reino de Deus” é uma autobiografia de Mário Justino, ex-pastor dessa igreja e protagonista de uma ascensão meteórica dentro da organização neopentecostal que está entre as maiores do Brasil.

O autor se apresenta como um adolescente triste e pobre que, certo dia, zapeando pelas estações de rádio do interior do Rio de Janeiro, ouviu uma retumbante “bênção da água” e se sentiu atraído a conhecer pessoalmente aquela igreja. Os hinos de louvores e os supostos exorcismos o fascinaram e o jovem largou a família e a bolsa de estudos para, com apenas 15 anos, trabalhar sem receber nada além de três refeições diárias no templo que passou a frequentar: ele era faxineiro, porteiro e vigilante. Aos poucos, foi mostrando talento para ser pastor. Ele comenta o que considera que se deva entender por “talento” neste caso: a “habilidade para enganar pessoas e fazê-las doar dinheiro”, conforme as suas próprias denúncias no livro.

Para crescer dentro da organização, que funciona de modo semelhante a uma rede de franquias, bastaria, segundo Mário Justino, ser um bom arrecadador de dinheiro e manter uma vida discreta. As “aparências de virtude do pastor”, de acordo com o livro, seriam cruciais para o sucesso do projeto, embora Mário Justino afirme que, nos bastidores, seriam normais os casos de adultério, fornicação e práticas homossexuais. Ele próprio conta, na autobiografia, que a sua primeira experiência sexual foi com outro pastor.

Devastadora autobiografia de ex-pastor

O autor relata que acabou se tornando pastor titular de uma das igrejas da rede e que, para manter o cargo, precisava bater metas mensais de arrecadação. O maior medo de todos os pastores, conforme o depoimento de Justino, seria terminar o mês com resultado negativo, pois essa “tragédia” implicaria pesadas represálias e poderia acarretar até a expulsão. O ex-pastor afirma que a cúpula da IURD sabia que muitos de seus pastores não tinham capacitação para exercer outros ofícios no mercado de trabalho e que, por isso, empregava com eficácia o terror psicológico para garantir o êxito das franquias. Como contraponto, sempre segundo as afirmações de Justino, as regalias para aqueles que cumpriam as metas envolveriam bônus em dinheiro, escola para os filhos, plano de saúde para a família, carro e viagens com direito a hotéis cinco estrelas.

Para um rapaz de 17 anos, de infância miserável e coração doído de tanto ver sofrer a pobre mãe lavadeira, aquela pressão era poderosa, relata ele. Mas não o suficiente para evitar que Mário Justino fosse tragado pela depressão profunda. Ele conta que se tornou refém dos remédios controlados e que não tardou a se viciar em drogas pesadas. Foram inúmeros os cultos que dirigiu, segundo seu próprio relato, depois de fumar maconha misturada com comprimidos de tarja preta.

Quando se desligou da organização, Mário Justino recorda que foi trabalhar como servente num aeroporto de São Paulo. Ainda mais viciado em drogas, passou a se prostituir, vendendo-se tanto para homens quanto para mulheres. Em paralelo, tinha esposa e dois filhos e, para sustentá-los, se viu forçado a recorrer aos antigos chefes e suplicar que o aceitassem de volta na IURD.

Seu retorno aos púlpitos, porém, foi breve. Ele conta que a cúpula o enviou no começo da década de 1990 para os Estados Unidos, onde a igreja tentava se estabelecer. Conta ainda que, numa carta privada, confidenciou a um suposto amigo que havia contraído aids. O suposto amigo o teria traído e denunciado a Edir Macedo, que, de acordo com o relato do ex-pastor, o expulsou da organização após 11 anos de serviços, sem nenhum direito trabalhista.

Abandonado pela família e sem condições de voltar ao Brasil, Mário Justino recorda em seu livro mais alguns capítulos dramáticos da sua vida: não apenas voltou a se prostituir, como ainda passou a atuar como traficante. Muito debilitado pelo HIV, terminou internado num hospital público norte-americano em que Danusa, transexual também procedente do Brasil, fazia trabalho voluntário. Foi Danusa quem ajudou o ex-pastor a superar a depressão, aprender inglês e encontrar trabalho.

A obsessão de Mário Justino, segundo ele próprio, passou a ser a vingança. Ele afirma no livro que a sua meta de vida era matar Edir Macedo. Tentativas chegaram a ocorrer, todas frustradas. Quando, tempos depois, o ex-pastor encontrou Danusa em pele e osso num leito de hospital, também vítima do HIV, inconsciente e apertando-lhe a mão quase sem forças em seus últimos suspiros, Mário Justino enxergou a pequenez da vingança. Decidiu que as tragédias da morte dos pais, da separação da esposa e da morte de Danusa, por quem tinha nutrido a única amizade verdadeira em toda a sua vida, precisavam ser superadas para encarar uma vida nova.

A autobiografia do ex-pastor Mário Justino não é apenas devastadora: dada a gravidade dos relatos, o conteúdo das denúncias exige respostas imparciais. O relançamento do livro permite que todos os envolvidos exerçam o direito de manifestar-se livremente para esclarecer os fatos denunciados, que são de interesse público devido ao seu potencial de grande impacto sobre a vida de milhões de cidadãos no Brasil e em vários outros países nos quais a IURD mantém presença.

O relançamento da obra

Nos Bastidores do Reino” foi relançado pela Geração Editorial com um capítulo adicional: o desfecho apresenta agora, na íntegra, a decisão judicial que derrubou a liminar de 1995, a qual obrigara a retirada do livro de circulação na época.

Segundo declarações ao jornal Folha de S.Paulo feitas por Luiz Fernando Emediato, publisher da Geração Editorial, Edir Macedo “tentou comprar os direitos do livro para engavetar”, primeiro de Justino, que recusou, e depois dele próprio, que também rejeitou a proposta. Ele mesmo diz: “Me dariam um dinheiro, e eu enrolaria o autor até ele morrer de aids, não tinha coquetel na época”.

Diante das negativas, a IURD entrou com o pedido de liminar que foi acatado pela Justiça. Luiz Fernando Emediato comenta: “A mesma juíza demorou dois anos para julgar o mérito. Quando julgou, surpreendentemente liberou [a publicação] e nos deu ganho de causa. Mas aí o interesse pelo livro havia desaparecido”.

O interesse parece agora reaparecer. Em 2020, surgiu inclusive a proposta de transformar a história de Mário Justino em filme produzido por Nilson Rodrigues, ex-diretor da Ancine (Agência Nacional do Cinema).

Declarações da IURD e de Mário Justino à imprensa

A Folha de S.Paulo informou ter tentado contato com a IURD mediante o seu departamento de comunicação, mas a organização respondeu que não se manifestará porque “não teve acesso a esta nova edição” nem recebeu “qualquer notificação da decisão judicial que, supostamente, teria liberado sua publicação”.

Ao mesmo jornal, o próprio Mário Justino declarou enxergar semelhanças notáveis entre a sua época na IURD e os embates atuais em Angola entre pastores brasileiros e locais. As autoridades angolanas denunciaram quatro membros da IURD por crimes como lavagem de dinheiro, negados pela organização. Justino afirmou à reportagem que as denúncias dos pastores angolanos recordam fatos que ele mesmo relatou há 27 anos.

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Abusos SexuaisigrejasJustiça
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