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Romualdo e sua proposta de vida

ROMUALD

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Reportagem local - publicado em 25/06/23

A “Pequena Regra” de Romualdo pode ser uma inspiração para todo cristão que, como Jesus convida, entrar em seu quarto, atento ao próprio coração, para rezar

Por uma monja beneditina camaldolense*

No dia 19 de junho celebra-se a festa de São Romualdo. Romualdo foi monge e viveu há mil anos atrás (morreu em 1027 em Fabriano no centro da Itália), mas seu exemplo de vida, seu o amor a Jesus e às Escrituras, ainda hoje fascina e atrai. A sua voz tão delicada e escondida na vida de eremita e, periodicamente também na vida reclusa, ressoa com grande força há mil anos… Seu estilo de vida, sem que ele quisesse ser fundador, deu origem à Congregação dos monges e monjas camaldolenses. 

Romualdo dizia que é melhor, se possível, cantar um único salmo com o coração atento e contrito, que recitar cem vagando com a mente… A quem dizia que rezar tão pouco é suficiente? Talvez a nós, acostumados a orações, devoções, cerimônias, ainda que nossa mente voe em todas as direções, não é fácil imaginar que bastaria rezar um único salmo… Mas é profundamente verdade que a intimidade da contrição do coração é encontrar-se com Deus; e é esta também a finalidade da nossa oração.

Como toda pessoa, Romualdo é um grande mistério e um grande dom de Deus. Encontrá-lo desperta, de maneira excepcional, o desejo de buscar a Deus e conhecer as Sagradas Escrituras. Nem todo encontro com uma pessoa deixa uma marca profunda em nossas vidas; nem todo encontro nos faz mudar de vida; nem todos nos fazem sentir a presença e o amor de Deus – mas todos nós desejamos ser assim e conhecer pessoas assim. Os santos estão entre nós, também aqueles que morreram há um milênio estão presentes hoje. Para alguns biógrafos, Romualdo é definido como o “profeta da virada do primeiro milênio e da reforma monástica”. Sua mensagem, de qualquer forma, é muito atual para o tempo presente: precisamos de Deus e da familiaridade com a sua Palavra.

Romualdo foi o último santo venerado tanto pelo oriente quanto pelo ocidente católico, porque morreu cerca de vinte anos antes da divisão das Igrejas do Oriente e do Ocidente que ocorreu em 1054 e, portanto, é um santo ecumênico. Também isso é para nós hoje, quando procuramos nos abrir e viver em comunhão com as outras Igrejas, um convite de esperança. A unidade e a comunhão encontram-se também na diversidade dos que se dirigem a Deus e escutam a sua Palavra.

Nas mudanças de época, apesar de se falar continuamente da necessidade de valorizar a pessoa e a dignidade humana, vive-se frequentemente uma degradação do humano, de tudo o que há em nossa natureza e traz a imagem de Deus. Em direção oposta, a doutrina espiritual de Romualdo centra-se no respeito pela pessoa em cada uma das suas etapas de crescimento, aplicando o princípio evangélico de que a regra deve adaptar-se à pessoa e não a pessoa à regra. 

Sua vida espiritual estava em constante movimento e, portanto, o seu modo de viver o amor a Deus assumiu várias formas. Seu caminho seguiu sua capacidade, em cada momento de sua vida, de abertura a Deus e de percepção da Sua vontade. Ora o vemos partir para a missão, ora fechado em uma cela eremítica. É o dom que deixou a quantos se reuniram à sua volta para partilhar o seu estilo de vida, chamado, por um de seus discípulos, de triplex bonum (três coisas boas), em que a multiplicidade e a diversidade de formas de vida monástica não prejudicam a unidade. Tudo é harmonizado pelo amor: eremitério, mosteiro cenobítico e missão. 

Por isso, a família camaldolense é muito diversificada em termos de formas. Romualdo viveu, e nos deixou como seu carisma, a liberdade espiritual. Ele próprio iniciou a sua vida monástica como beneditino, mas alguns anos depois voltou-se para a vida eremítica, segundo a tradição oriental e inicial do monaquismo; permitindo que o carisma beneditino se ampliasse. A última fundação de Romualdo é Camaldoli, numa floresta na Toscana, composta por duas realidades monásticas intimamente ligadas entre si: um eremitério e um mosteiro. Talvez por causa dessa flexibilidade nas formas de vida, apesar de sua localização, o mosteiro se tornou o centro do diálogo ecumênico desde o século passado.

Pedro Damião, um de seus discípulos, em seu livro sobre a vida de Romualdo conta: “Aconteceu que um dia, enquanto cantava em sua cela, encontrou este versículo do salmo: “Eu te darei inteligência e te instruirei sobre o caminho que terás de percorrer, fixarei em ti os meus olhos”. E eis que, de repente, uma profusa torrente de lágrimas fluiu dele, e seu espírito foi tão iluminado a ponto de compreender os ensinamentos das Escrituras, de tal forma que, no mesmo dia e depois por toda a sua vida, copiosas lágrimas fluíam dele com facilidade sempre que ele queria, e numerosos sentidos místicos das Escrituras não lhe eram mais escondidos”.

Romualdo não nos deixou grandes tratados, cartas ou comentários sobre a Sagrada Escritura. Deixou apenas uma “Pequena Regra” que contém todo o seu testamento:

Sente-se em sua cela como no paraíso.

Esqueça o mundo e deixe-o para trás.

Vigie seus pensamentos como um bom pescador aos peixes.

O único caminho para você está nos Salmos, nunca saia dele.

Se você chegou (ao mosteiro) recentemente, e apesar de seu primeiro fervor

não consegue rezar como gostaria, procure, ora aqui ora ali,

cantar os Salmos com o coração e entendê-los com a mente.

Quando você se distrair,

não pare de ler; nem desanime, volte rapidamente ao texto

e volte a sua atenção a ele novamente.

Antes de tudo, coloque-se na presença de Deus, com uma atitude humilde,

como quem está diante do imperador.

Esvazie-se

e sente-se como uma criancinha,

feliz com a graça de Deus;

pois, se como uma mãe, Deus não a der,

você não provará nada, não terá nada para comer.

É um texto muito curto e quanto mais se lê, mais sabedoria se encontra: a simplicidade de vida segundo os Salmos e o contentamento confiante pela graça de Deus que leva à paz do coração. Não é só para monges. É um convite a todos os cristãos. Romualdo foi um filho de sua época, marcado por sua história pessoal e familiar. Desde menino começou a sentir o desejo de se dedicar a Deus e de repente viveu um grande drama: presenciou um assassinato cometido por seu pai! Aquele acontecimento tornou-se a ocasião decisiva para ele entrar no mosteiro e assumir a penitência de seu pai (como se usava fazer na época). 

Assim, experimentou que com a oração e o perdão o coração se liberta e se purifica. Os biógrafos destacam a sua grande humanidade, delicadeza, sentido de humor, sabedoria divina, caridade e a grande paz com que acolhia a todos. Ninguém ficava indiferente depois de o conhecer. Exercia grande influência sobre todas as pessoas que o encontravam: ricos, pobres, bispos, clérigos, jovens, príncipes… Foi muito fecundo. Caminhou muito e fundou mosteiros e eremitérios. Quando estes se enchiam de monges, mudava de lugar. Uma vida riquíssima e muito diversificada: do empenho incansável contra a corrupção do mundo dos poderosos ao sossego da vida solitária de reclusão.

Existem coleções de ditados dos Padres do Deserto que viveram no Egito nos séculos III\IV que inspiraram muito Romualdo em seus ensinamentos e sua vida. Um deles, por exemplo, conta que Padre Moisés disse a um irmão que foi a Scete pedir-lhe um conselho: “Vai, permanece na tua cela, e a tua cela te ensinará tudo”.

A “Pequena Regra” de Romualdo pode ser uma inspiração para todo cristão que, como Jesus convida, entrar em seu quarto, atento ao próprio coração, para rezar: Quando rezar, entre no seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai em segredo; e seu Pai, que vê em segredo, lhe recompensará (Mt 6, 6). É a oração e o silêncio com Deus que lentamente transformam o coração humano e o santificam, como aconteceu com Romualdo.


*A autora pede que seu nome não seja identificado segundo a antiga tradição monástica, é monja beneditina camaldolense do mosteiro Sant’Antonio Abate, Roma.

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